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SOMEONE NOS PROTEJA! SOCORRO! ALGUÉM...ALGUÉM?? Postado em 28/06/2015 por SINPEFRN às 00:00

Eu sempre assisti a Rede Globo, desde menino.
Meu nome é Joãozinho, mas poderia ser Zézinho. O tempo foi passando, daí fui crescendo, então, hoje, eu poderia ser Zé, João, Zezão, Dirceu... não, Dirceu não! Eu poderia ser qualquer um, aliás já que tá na moda o inglês, porque vai ter copa, então, hoje eu sou Someone. Estrangeiro é mais importante.
Parece que foi ontem. Como passa rápido o tempo! Quando eu era só Someone franzino, descalço e correndo pelas ruas da pequena cidade onde morava. Morara, brincava, sonhava e trabalhava. Trabalhava sim, era pequeno mas trabalhava. Precisei trabalhar de muito cedo. Mas não era explorado, eu ajudava em casa. Sentia orgulho disso. Papai e mamãe me amavam muito, era bom quando estava em casa. Era bom quando estava na rua. Como eu gostava da rua. Eu tinha muitos amigos. Amigos de casas, amigos de rua. Engraçado, meus amigos de rua tinham casa. Sempre brincávamos de tardinha, quando voltávamos do trabalho e nos reencontrávamos em nossa rua; também o trabalho era na rua. Eu comecei como engraxate e depois ascendi a sorveteiro (picolezeiro, na realidade, vendedor de picolé em carrinho de empurrar). Relembrando, até escuto meus gritos: soooooorrrveeeeettteeeeeeee. Eita! Eu ia pra casa, praticamente, pra comer e dormir.
Vejo na Rede Globo que as ruas não estão iguais. Eu vejo na TV. As coisas que acontecem a TV mostra. Tem muita violência. A rua não é mais a mesma. Todo mundo, hoje, tem medo da Rua. Todo mundo se tranca em suas casas e até nos seus carros, quando estão nas ruas. Que coisa!
Numa tarde, há muito tempo, eu estava na rua. Era uma rua diferente, porque era rua de capital. Eu estava de férias da escola e fui passear na capital. Um tio morava lá. Fui com mais uns primos. Fomos de trem, era mais barato. Bem, voltemos à rua da capital. Eu estava na rua, numa esquina, esperando fechar o sinal dos carros, pra eu passar pra outra calçada. Ouvi ao longe uma sirene. Cada vez mais foi ficando alta, mais forte. Olha, passou por mim numa velocidade. Era uma veraneio. Uma veraneio preta e pintada com uns sinais, umas faixas... tava escrito POLÍCIA FEDERAL. Quando ela foi passando, abrindo caminho com sua sirene e luzes, os carros...os carros, todinhos foram se atrepando nas calçadas, uns coladinhos nos outros, para sair da frente dela. Para um Someone com eu? Nunca tinha visto nada parecido. Fiquei doido. Praguejei, tirando onda: Vou dirigir uma destas.
Fiz 18, fui pro exército. Já tinha terminado a 8a série. Eu queria ser um homem feito, como se dizia lá pra minha rua. Não foi muito fácil no exército. Saí assim que deu certo. De exército foram só oito meses e vinte e oito dias. Mas cheguei ao posto de Cabo. Numa conversa com papai, antes de sair das Forças Armadas, ele me disse que ajudava se eu quisesse estudar mais. Passei num vestibular. Ganhei bolsa de estudos da prefeitura da minha cidadezinha e me formei em Direito. Advoguei. Fiz concurso e virei um Someone da POLÍCIA FEDERAL.
Engraçado, da minha cidadezinha, até quem eu não conhecia virou meu amigo. Parecia que eu não era mais o mesmo Someone. Foi em 1997. Foi um pouco estranho, mas muito bom.
Quando eu terminei a Academia Nacional de Polícia, fui designado pra trabalhar numa cidadezinha. Cheguei cheio de razão. Cheio de idéias, cheio de ideais, com mais sonhos ainda.
Lá, pagava aluguel praticamente para o meu cachorro. Vivíamos trabalhando na circunscrição da delegacia. Eram mais de 26 municípios. Novamente eu, só mais um Someone, estava nas ruas.
Quando se entra pra Polícia Federal, você não é mais só um. Agora éramos sempre três ou mais e/ou, no mínimo dois Someone. Foram muitas barreiras, incontáveis abordagens, prisões, flagrantes, apreensões de aeronaves, carros, gado, cavalos de raça, barcos, tudo o que o dinheiro do crime, organizado ou não, pudesse comprar, nós apreendíamos. Policial cedo aprende que bandido só sente dor no bolso.
Só um policial pode explicar como é bom e compensador quando se escuta o som que produz o primeiro “clique” de uma algema se fechando no punho de um vagabundo. Este som representa meses e, por muitas vezes, até anos de investigação, de sacrifícios pessoais, de ausências familiares, noites mal dormidas ou acordadas mesmo (chamávamos de noites viradas - cultura inútil) e perigos vividos nas tantas vigilâncias que fizemos nos mais variados lugares, situações e climas (chuva, sol, frio, chuva com frio, mosquitos etc).
O pior dos incômodos que uma investigação causa a Someone é a ausência do convívio familiar. Quase todos meus amigos, Someone como eu, tornaram-se pais de outros Someone, meninas e meninos e também se agruparam com companheiras(os), outras(os) tantas(os) Someone, que sofreram do mesmo jeito. Isto porque a ausência do convívio familiar atinge a quem sai e a quem fica. Só quem viveu a situação, sabe a falta que fez e faz um aniversário de um filho(a) sem sua presença, uma reunião de pais na escola, uma apresentação... Eu sei, porque já fui em algumas que outro(a) Someone como eu, faltou. Daí pude presenciar a tristeza no rosto do(a) filho(a) de pai e/ou mãe ausente(s) por causa do trabalho de POLICIAL FEDERAL.
O que sempre confortava Someone ausente era saber que o crime que iria se coibir acabaria por proteger Someone que ficou em casa. Esta certeza dava alento.
A POLÍCIA FEDERAL, como mostra a TV, é muito importante para o Brasil. Porque é a Polícia Federal que combate traficantes, assaltantes de banco, pedófilos, corruptos políticos ou não, contrabandistas, praticantes de descaminho, além de cuidar, também, do patrimônio histórico, do meio ambiente e de fiscalizar empresas privadas, de produtos químicos, de segurança armada, controlar imigrantes, traficantes de pessoas e tantos outros crimes (CF, art. 144).
Era mais fácil. Ser um bom policial federal era mais fácil. Um antigão (policial federal com mais tempo de serviço e grande experiência de trabalho policial) mandava fazer, Someone fazia e pronto. Flagrante dado, levávamos pra delegacia e já se estava pronto pra outro.
Com o passar do tempo Someone abre os olhos para a realidade contextual do país. Someone alerta outros que algo está muito errado. O sistema não funciona.
Exemplificando isto, um dia fui numa audiência (como condutor – policial que apresenta o preso na delegacia e em juízo) em que na sala de espera, estavam sentados a vítima de um sequestro e o seu sequestrador, sem algemas, aguardando o chamado do juiz para serem ouvidos. Confesso que fiquei tenso, imagine a sequestrada, uma moça de 19 anos, ladeada por seu algoz.
Policiais Federais são instruídos a pouco aparecer, a serem discretos e comedidos, desde a ANP (Academia Nacional de Polícia). Têm muito sentido. Se se pretende fazer uma investigação, o investigador tem que passar a impressão de não ser policial. Deve se misturar ao ambiente sob risco de não conseguir o fim pretendido e até de por em perigo sua própria vida.
Quando as operações policiais se finalizavam, como os policiais investigadores iriam realizar outras investigações futuras, estes permaneciam por trás das cortinas. Os delegados iam a público e explicavam o ocorrido para as câmeras, para o povo. Se as câmeras fossem da Rede Globo, brigavam entre si para ver quem iria aparecer.
Muitas operações fantásticas foram mostradas na Rede Globo e outras. Uma maravilha. Someone, que também é povo, até se arrepiava ao vê-las e saber que tinham acontecido com sucesso e mérito, por sua participação anônima, por seu empenho, suor e até sangue. Quantas ou quase todas foram assim.
Someone policiais investigadores faziam o trabalho, traziam-no pronto para dentro das dependências da Polícia Federal e delegados davam entrevistas para a Rede Globo.
Se eu fosse Someone do povo, também pensaria que quem realizou estas operações foram os delegados, ou a seu comando. Nunca iria pensar que Someone poderia ter feito tudo sozinho e muitas vezes até a revelia dos delegados.
Alguém sempre vai dizer que Someone fez porque foi coordenado e comandado.
Se eu fosse somente Someone do povo, também acreditaria. Mas como sou Someone da POLÍCIA FEDERAL, sei que as denúncias e notícia de crimes vem anônimas, vem do Ministério Público Federal, vem do Povo, vem em decorrência de outros flagrantes, como seus resultado ou consequência, vem inclusive por iniciativa de Someone, ou por determinação judicial e até mesmo por meio de conhecimento passado por delegado. Contudo, o método de progredir até a final prisão dos culpados é o mesmo. A investigação avança e se finaliza por investigação de Someone.
Assim, poucos são os brasileiros que sabem que na realidade alguém, famoso ou não, quando aparece na Rede Globo ou outras, preso, tendo sua história narrada por delegados ou outro, foi investigado e preso por Someone.
Não se noticia que tudo se deu porque Someone abnegado se esforçou, ficou sem dormir, privou-se do convívio com os seus e arriscou sua vida para que os delegados pudessem mostrar o resultado final, ficando famosos.
Um à parte. Quando os famosos delegados brigam entre si, utilizam-se das mesmas operações realizadas por Someone para se mostrarem competentes, injustiçados, perseguidos, etc. Assim ganham apreço do público e aparecendo na mídia, na Rede Globo, se elegem deputados, até.
Mas Someone acaba acordando para a realidade. Acordou tarde! Muito já se perdeu. Alguém que não Someone já controla toda e qualquer chefia ou delegacia dentro da POLÍCIA FEDERAL que tenha status e/ou pague DAS.
Quando Someone acordou, mais coisas já haviam se perdido. A exemplo do poder de compra dos seus vencimentos. Da almejada vida digna, incluindo moradia segura, em bairro seguro, alimentação, diversão, escola de qualidade, plano de saúde e o dever de deixar para os filhos um legado... tudo isso virou desejo e utopia. O subsídio de Someone da POLÍCIA FEDERAL paga mal por sua alimentação e de sua família, somados a um plano de saúde meia-boca.
Logicamente Someone tem que gritar por socorro. Quem nunca leu, num adesivo em carro de luxo na rua, a frase: “se tá ruim pra mim, imagine pra classe média!”. Fazendo uma analogia com a segurança pública, esta séria brincadeira ficaria assim: “Se eu não tenho como dar segurança para minha família, como vou promover a segurança das ruas?”
Das ruas que eu tanto gostei? Das ruas que tantas alegrias proporcionaram a Someone em sua infância? Das ruas dos encontros casuais? Das ruas, enquanto veios de transporte entre casa, trabalho, laser, hospitais, padarias, escola dos filhos? Sim. Destas mesmas ruas. Em cada uma destas banais situações, qualquer pessoa pode sair de sua casa e não voltar mais.
A Segurança Pública no atual estado em que se encontra (se é que se pode usar desta palavra, pois ao que parece a Segurança Pública não se encontra), não é culpa só dos delegados da POLÍCIA FEDERAL, obviamente. Mas também o é. Da mesma forma, como tem culpa a Governante do Brasil, que só pensa em mandar dinheiro nosso para país comunista e para seus próprios bolsos.
Tem culpa o sistema de Segurança adotado por nosso país, como um todo. Tem culpa a lentidão de nosso judiciário. A falta de apoio que Someone Policial Federal tem dos delegados, do Ministério Público Federal e Estadual, do Poder Judiciário e até do próprio povo.
Tem culpa a Mídia que só publica o que passa pelo crivo da Presidente do Brasil e sua corja. Tem muita culpa o Poder Judiciário ao fazer corpo mole, quando afrouxa as regras da prisão, se o preso for integrante do governo.
Tem culpa o “modismo permanente” dos tais Direitos Humanos, defendidos pelas tais ONGs que ninguém explica por que só aparece defendendo bandidos. Tem culpa o povo, quando se vende por bolsas quaisquer coisas e deixa de procurar um trabalho produtivo, educação e meios de se autopromover, melhorando de vida por meio de seu trabalho.
Tem culpa o povo ignorante, que é mantido na ignorância pelo Governo e que prefere ser mantido na ignorância cômoda, acatando a fantasia de defesa de “pobres vagabundos” dos “coitadinhos” que não tiveram chance nem amor na vida e por isso são assassinos cruéis, mas que devem ser perdoados, em detrimento de policiais que lutam com suas poucas armas para minimizar o caos.
Qualquer um, até um simples Someone poderia passar horas citando tantos outros exemplos e culpados. Já temos muitas culpas. Precisamos avançar para as soluções. Três soluções se mostram, atualmente, para socorrer a Segurança Pública.
1a. PEC 51: a) possibilitando correção do sistema e consequente avanço na forma de se fazer polícia, pois a investigação não mais seria dividida. Determinando que cada polícia cumpra o ciclo completo de investigação; b) tornar a polícia mais próxima do povo, passando os comandos para prefeitos e governadores, desmilitarizando a Polícia Militar e permitindo que ela cumpra o seu papel de polícia ostensiva, repressora (de crimes) e investigativa. O policial deve servir ao povo, não matá-lo. Por isso a PM deve ser desmilitarizada. O povo não é inimigo. O Soldado Militar treina para matar o inimigo. A Polícia Militar (PM) deve promover a segurança. c) criar um meio externo de controle das polícias, trazer transparência para os atos policiais, objetivando impedir abusos de mal uso das forças policiais por estados, municípios e governo federal. d) tornar mais célere o processo de prestação do serviço policial.
2a. PEC 361: torna a Polícia Federal em uma força aos moldes do FBI, onde meninos recém formados em bancos de faculdade, permanecem assim, sempre aprendendo. Aprendendo com quem tem experiencia de vida e serviço. Cumprindo a Constituição Brasileira, respeitando a carreira única prevista em seu artigo 144 e promovendo a competência e a meritocracia pessoal. Permitindo aos chefes que tenham seus postos por merecimento e competência. Possibilitando a independência dos atos de POLÍCIA FEDERAL dos atos partidários do governo federal.
3a. PEC 73: determinando que a POLÍCIA FEDERAL é órgão estruturado em carreira única.
Joãozinho, Zezinho, Zé, Zezão e até Dirceu. Ninguém mais suporta o caos que está instaurado neste Brasil, principalmente no campo da Segurança Pública.
Hoje eu gostaria de não mais ser Someone da POLÍCIA FEDERAL. Que triste. Someone gostava tanto. Mas dói no coração de cada um dos Someone que tenho a honra de conhecer e de ter conhecido, a insegurança jurídica, financeira e legal pela qual vem passando a POLÍCIA FEDERAL.
É doloroso ver colegas de profissão perderem suas vidas em reações à assaltos, em suicídios, em troca de tiros em serviço ou, sem Ordem de Missão (já que sempre estamos em serviço). Agora digo com todas as letras: dói muito ver amigos passando por tudo isso.
É fato que a adversidade une pessoas. Policiais que vivem na mesma “Rua”, cheia de buracos, problemas e desavenças do DPF, tornam-se amigos. Tratam-se como irmãos. Dói muito ver um irmão morrer.
Doí ver um irmão se tornar tetraplégico. Dói ver os filhos deste irmão ficarem órfãos. Dói saber que a Presidente e o Ministro da Justiça não ligam a mínima para tudo isso.
Dói saber que muitos delegados, os mesmos que sempre se fizeram de amigos, agiram sorrateiros, costurando uma teia de controle total, visando ocupar todas as chefias de delegacias do DPF e atrapalhando na busca por melhorias no trabalho, à própria sorte, os Escrivães, Papiloscopistas e Agentes Federais.
Someone pode se perguntar um dia: Por que a Rede Globo não mostra quando os não delegados da POLÍCIA FEDERAL realizam protestos, paralisações e manifestos por melhores condições de trabalho, exigindo o cumprimento da lei que os reconheceu há muito como carreira de nível superior?
Por que a Rede Globo não divulga com enfase, que vários irmãos Policiais Federais morreram em serviço ou em assaltos?
Por que em duas novelas, exibidas em horário nobre, tem sempre um delegado que é super herói, passando ao público a falsa impressão de que delegado age como agente policial?
Por que o Governo Federal não coloca em lei todas as atribuições, que de fato são exercidas pelos Escrivães, Papiloscopistas e Agentes Federais, tornando de direito o que já, há muito, ocorre de fato?
Por que o Governo Federal só não trata com respeito os Policiais Federais, dentre todas as carreiras típicas de estado? Que mágoa é essa?
De pouco em pouco, a Segurança Pública virou um caos. Se for possível falar em lado bom das coisas, neste momento, o que se tem de bom é a chance de mudar. A poucos passos do fundo do poço, nós Someone da POLÍCIA FEDERAL, conclamamos a Sociedade Brasileira, como um todo a vir às ruas (ah, as RUAS!).
Temos que cobrar dos governantes, em todos os níveis, municipal, estadual e federal, que realizem a mudança desta estrutura caótica. Já passou da hora de acordarmos.
O modelo seguido pelos órgãos de Segurança Pública do Brasil não funciona e isso é indiscutível. A violência da qual somos vítimas hoje, é a autenticação desta ineficiência.
Em algum lugar, em algum momento, hoje, agora, Someone está sofrendo!
Espero que quando alguém precise de ajuda policial, Someone da POLÍCIA FEDERAL tenha condições de atender e, que não esteja impedido de cumprir com sua missão policial por falta de equipamento adequado, por falta de viatura, por falta de legislação que regulamente suas atividades, lhe dando respaldo legal e a valorização merecida ou, por estar em coma num hospital, lutando pela própria vida, ou até morto, numa guerra civil que já se vai pra lá do meio, neste ineficiente sistema de Segurança Pública Brasileira.
Someone nos proteja. Tomara que seja Deus!

Luciano Cavalcante dos Santos.
Agente de Polícia Federal
Classe Especial

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