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'Japonês da Federal' pretende se aposentar para cuidar da família Postado em 01/03/2016 por Sindicato dos Policiais Federais às 11:32

É
legal as pessoas lembrarem que atrás desse uniforme, atrás dessa
postura, existe um ser humano, que sofre, ri, chora, ama, tem problemas
pessoais e é sensível”



Oriental, grisalho, óculos escuros, 1,70m. Newton Ishii, 60 anos, virou
um dos personagens mais falados da Operação Lava-Jato, que investiga
esquema de corrupção na Petrobras. Sempre ali, de “papagaio de pirata”
nas imagens de prisões de políticos e empresários renomados, a figura do
Japonês da Federal virou até boneco de Olinda. O chefe do Núcleo de
Operações da Polícia Federal de Curitiba não consegue entender o que
aconteceu. “É o meu trabalho. Tem colegas que participaram até de mais
prisões que eu, mas virei o rosto da Lava-Jato. ”




Apesar de se divertir com a fama, o policial, nascido em Carlópolis
(PR), está cansado e pensa em se aposentar em maio, quando lhe será
permitido por lei. Aos 60 anos e dono de uma trajetória difícil, Newton
quer se dedicar mais à filha. Filho de pai japonês e mãe nissei (segunda
geração de imigrantes), o Japa da Federal só foi ao Japão uma vez,
quando levou a neta para visitar o filho que trabalhava lá.




Orgulhoso da mudança que a Lava-Jato está promovendo no país, Newton
acredita que a sensação de impunidade mudou. “Diminuiu a cultura do país
de achar que é melhor levar vantagem em tudo. ” Para ele, a parte mais
satisfatória é estar servindo de exemplo para crianças e adolescentes.

Em entrevista exclusiva ao Correio, Newton fala sobre a sua história e a
fama repentina. Mesmo preferindo que o foco tivesse se voltado para
outro colega, o policial consegue se divertir. “Passei a andar com os
óculos escuros no bolso até de noite, porque as pessoas não querem tirar
foto comigo sem ele. ”


O senhor está afastado do cargo?

De jeito nenhum. É boato. Não sei de onde saiu isso. Estou em férias. Elas acabam em 7 de março e voltarei para o mesmo lugar.


Como virou o “Japa da Federal”?

Sou chefe do Núcleo de Operações. Uma das funções do núcleo é conduzir
os presos. Com a Lava-Jato, começaram a aparecer na mídia fotos da
equipe. E, por algum motivo que não sei, a mídia começou a focar em mim.
A origem disso tudo é desconhecida. Talvez por ser o único oriental.
Tem colegas que participaram até de mais prisões que eu, mas virei o
rosto da Lava-Jato. Ninguém consegue explicar o porquê de esse foco ter
se virado para mim. Formou-se essa imagem de símbolo de combate à
corrupção. Na verdade, esses símbolos não têm nada a ver. Eu, Newton, só
represento a corporação. Sou muito reservado, discreto. A gente precisa
estar na rua. Agora, por exemplo, como é que vou efetuar uma prisão? Se
chego a um local, todo mundo sabe que a Polícia Federal está lá. Então,
tenho preferido ficar mais na parte de coordenação.


A fama tem atrapalhado?

Agora não mais, porque estou ficando mais na parte de logística. A
imprensa começou a fotografar direto. Fica inviável. As prisões estão
sendo feitas por outras pessoas também envolvidas na Lava-Jato. Não
somos exclusivos da operação. Tudo que se refere à parte operacional é
do meu setor. Temos operações de pedofilia, tráfico de drogas... A
Lava-Jato é uma delas. Só que esse personagem criado saiu um pouco do
controle. Sempre tem algo sendo publicado a meu respeito. Tanto que
fizeram marchinha de carnaval, máscara, até boneco de Olinda. Ligaram
para mim, pediram autorização. As máscaras, não. Mas tudo bem. Não me
incomodo.


Você recebeu direito de imagem?

Não, nem faço questão. Deixa os comerciantes ganharem o dinheiro deles.


E como está lidando com a fama?

A cada dia essa fama me surpreende mais. Ela tem dois lados. Tem o lado
bom, do reconhecimento. O lado das crianças e adolescentes é muito
legal. Eles querem tirar foto, conversar e estudar para mais tarde fazer
concurso para a Polícia Federal. Estamos dando um bom exemplo. No
Brasil, a polícia nunca teve esse papel de exemplo e agora, com a
Lava-Jato, estamos tendo apoio em todos os sentidos, todas as classes
sociais. Dizem que estão rezando, torcendo para que tudo acabe bem. Isso
fortalece o trabalho e nos dá força para continuar.


E o lado ruim?

Algumas coisas, né? Tem muita inveja em cima disso, ciúmes de colegas.
Em um momento isso chegou a me desanimar. É normal do ser humano sentir
ciúmes, inveja, mas quando é demais e começam a atacar o lado pessoal,
fica muito chato. Não sei qual a intenção. Se a gente está fazendo o bem
para a sociedade, por que esse tipo de coisa? Tem certas horas que isso
afeta muito a vida, minha família. Estou muito trancado em casa. Por
exemplo, fui convidado para o carnaval do Recife para ver o lançamento
do boneco, mas preferi ficar em casa. Também não tem nada a ver eu
chegar lá e ficar curtindo. Acho legal, uma homenagem; obrigado, a PF
agradece, mas seria uma exposição desnecessária. Então, fico dentro de
casa, com a minha filha. Parei de ir ao barzinho sexta à noite. Não faço
mais passeios. Evito, até porque todo mundo pede para tirar foto e a
gente não sabe quem é aquela pessoa e o que ela vai fazer com aquela
imagem. Amanhã, ela pode usar em uma campanha eleitoral e me acusar de
estar apoiando X ou Y, e não tem nada ver. Sou apartidário. Nunca gostei
de política. Pela minha profissão, até deveria gostar, mas não sou
muito de política. Eu até tiro a foto, mas fico com essa preocupação.
Sei que ela vai parar nas redes sociais, e não tem como controlar.


Você está nas redes sociais?

Não, não tenho perfis. Até minha filha não tem mais. Fico sabendo das coisas pelos colegas. Melhor ficar longe.


Acabou a privacidade?

Sim, mas isso é natural. Não posso falar que está me prejudicando, até
porque sei que é momentâneo. Daqui a pouco, a vida volta à normalidade. A
questão da imprensa é a mais complicada. Estão vasculhando a minha
vida. Inventam coisas. Publicam informações sobre mim e o pessoal da PF
que não têm nada a ver. É um pessoal sério, competente. Se não houvesse
sinceridade, honestidade, eu não estaria me esforçando, trabalhando 13,
14 horas por dia. São pessoas boas. Tem gente que acredita que somos de
partido A ou B. Não tem isso. Acham que queremos derrubar o PT. Ninguém
quer isso. O pessoal quer prender alguém que cometeu algum ilícito.



Essa exposição poderia ter sido evitada? O senhor escolheu os presos que acompanhou?

Não, porque é a minha função. Até por uma questão de liderança. Sou
chefe do departamento. No dia de uma operação importante, vou ficar lá
atrás? E também ninguém imaginava que isso fosse acontecer. É o meu
trabalho.


Se você pudesse voltar atrás, sabendo da repercussão, faria diferente?

Com certeza. Se eu pudesse voltar, trabalharia na mesma coisa, mas
tentaria fazer de uma maneira que não aparecesse tanto. Eu preferia que
fosse com outro colega. Se fosse sem as invenções, sem as críticas, as
brigas de egos, seria maravilhoso. Mas já passei por muita coisa, não
mereço passar por mais isso. Nesta altura do campeonato, o que quero é
terminar meu tempo na PF, cumprir o que me falta e que tudo isso passe.


Acabar seu tempo na PF?

É. Estou cumprindo dois anos que fiquei devendo. Tomei posse em janeiro
de 1976, em Guaíra (PR). Em fevereiro, já assumi a delegacia, porque era
substituto do chefe. Imagina, só tinha 20 anos. Sentado atrás de uma
mesa, recebendo gente, tomando decisões. Valeu a pena pela experiência.
No fim de 1976, me casei com a Maria de Fátima, que conheci em Curitiba
quando tinha 15 anos. O pai dela era da PF e me incentivou a fazer o
concurso. Nem sabia o que a polícia federal fazia. No fim de 1977,
tivemos nosso primeiro filho. No ano seguinte, fui transferido para
Londrina e, depois, Foz do Iguaçu. Na época, o departamento tinha um
benefício: para cada ano trabalhado, a pessoa ganhava um mês de
aposentadoria. Era algo assim. E ganhei isso à época. Eu e milhares de
colegas. Em 2003, me aposentei com 28 anos de trabalho. Depois, o
Tribunal de Contas alegou que a aposentadoria era irregular e tive que
retornar. Teve colega que voltou para cumprir uma semana. Eu voltei para
dois anos em 2014, logo no início da Lava-Jato. O meu tempo acaba em
maio. Essa história de que fui demitido, entrei na Justiça e consegui
meu emprego de volta é boato.

O ano de 2003 coincide com a data em que o senhor foi preso.

É, na Operação Sucuri. A acusação foi de formação de quadrilha e
facilitação de contrabando. Fui preso quando ia trabalhar. O colega
pediu para que eu o acompanhasse à delegacia sem eu nem saber o motivo.
Aí, vieram pedir autorização para vasculhar minha casa. E não acharam
nada. Vi a relação de coisas apreendidas, umas bobagens. Tinha até um
papelzinho escrito Rinosoro, que é um descongestionante nasal.
Trabalhava em Foz do Iguaçu na época. Como me indiciaram por facilitação
de contrabando se não tinha empresa, apreensão de mercadoria, nada?
Passavam milhares de carros por lá. Era incontrolável. Éramos dois e o
foco era no tráfico de drogas. Você tem que parar alguém. Quando você
para um, passam milhares. A gente ficou quatro meses presos, sem
receber.


Mas você foi condenado.

Praticamente todo mundo foi condenado. Aí, foi para a segunda instância.
Eu fui condenado a pagar cesta básica, enquanto outros foram
inocentados, outros perderam a função. E recorri. Está em curso. Como é
que vou pagar cesta básica por uma coisa que não fiz? Os processos
administrativos foram arquivados por falta de provas.

A relação com a PF mudou?

Não. A PF é uma coisa. Quem está atuando nos diversos cargos é outra. No
caso, o chefe da delegacia na época fez isso para se promover. Mas
senti vontade de rasgar o meu diploma de direito. Todos os meus direitos
foram desrespeitados.



E o período fora da PF?

Foi o pior da minha vida. Foi quando meu filho, Eduardo, foi para o
Japão trabalhar. Era 2001. Trabalhava 12, 13 horas por dia. Depois de
quase três anos, ele voltou e abriu uma empresa de serviços automotivos,
mas não deu certo. E ele teria de retornar ao Japão, porque ele só
tinha ensino médio e o que se ganhava na época lá era compensador. Como
ele era sansei (terceira geração nascida no Brasil), a documentação é
difícil. Nessa espera, de quase um ano, ele entrou em depressão porque
não queria deixar a filha e a esposa aqui. Ele estava doente e a gente
não percebeu. Não vimos a gravidade. Achamos que era tristeza. Aí ele
acabou cometendo suicídio em setembro de 2006. Tinha 27 anos. Nossa….
Foi difícil. Minha filha ficou muito mal. Minha mulher ainda resistiu
dois anos, mas só Deus sabe o que ela passou. Ela começou a ter
depressão, síndrome do pânico e, a partir daí problemas associados:
arritmia, pressão alta, perdeu muito peso. Ela não conseguia dormir.
Perto de falecer, em abril de 2009, falava muito em vê-lo mais uma vez.
Acho que ela foi lá cuidar dele.



E a sua filha?

São 12 anos de diferença entre eles. A morte do Eduardo mexeu muito com a
Jordana. Quando ela começou a melhorar, em um ano, a minha esposa
faleceu. Até hoje me lembro da gente sentado na porta do hospital e ela
disse: “Pai, não acredito em Deus”. Na hora, não disse nada. Mas depois
falei: “Filha, Deus existe. Ele nos deu a oportunidade de conviver com a
pessoa maravilhosa que era sua mãe”. Aos 25 anos, ela ainda não
conseguiu seguir um rumo. Tentou vestibular para medicina, fez faculdade
de direito, mas largou. Agora, está fazendo tratamento para depressão. É
complicado para ela. Nos últimos anos, trabalhei direto. Saía de manhã,
ela estava dormindo, voltava à noite, cansado, tomava um banho e caía
na cama. Ela ficou muito sozinha.



O que ela acha de ser a filha do Japonês da Federal?

Ela não gosta. Fica assustada e temerosa. Antes, ela saía com as amigas;
agora não mais. Eu me preocupo. Tenho muito medo de alguém fazer algo a
ela para me atingir. Vamos supor que ela saia, alguém coloque algo na
bebida dela.  É prato cheio, né? Para alguém dizer que a filha do
Japonês da Federal estava bêbada ou drogada. Podem fazer de tudo para
tentar denegrir a imagem da gente.



E a Lava-Jato?

Foi um divisor de águas. Já mudou muita coisa. A própria cultura do país
de achar que é melhor levar vantagem em tudo. As pessoas estão mais
conscientes. Sabem que vão para a cadeia. Diminuiu a sensação de
impunidade. É o lado bom da coisa. Você recebe cumprimentos de guarda
municipal, delegado, policial civil. A gente acaba dando exemplo para a
polícia também. Tem que trabalhar direito. O dr. Moro (Sérgio Moro) é um
profissional competente, seriíssimo. Tem uma equipe muito boa ali.



Mas você quer sair?

Se eu tivesse que decidir hoje, sim. Quando acabar meu tempo em maio,
penso em pedir a aposentadoria. O tempo que a gente perde não se
recupera. A vida é muita curta. O tempo que perdi, no sentido de ficar
com a minha filha, não volta atrás. Enquanto tenho saúde, quero ficar
com ela. É a única coisa que me resta.



Pensa em entrar para a política?

De jeito nenhum. Isso nunca passou pela minha cabeça. Eu sou polícia e
vou morrer polícia. O único plano que tenho é cuidar da minha filha. Ela
é prioridade. Tudo que fiz dentro da polícia foi muito bom. Aprendi
muito, contribui. E me sinto realizado.



Mas você está novo. Pensa em um novo amor? Porque até pedido de casamento você tem recebido, né?

(Às gargalhadas). É verdade. Legal, né? Mas estou solteiro. Claro que
quero alguém pra seguir a vida ao meu lado. É importante, mas nesse
momento não tenho condições. Uma coisa é você conhecer uma pessoa, outra
é se dedicar a ela. Não tenho tempo e a minha prioridade é minha filha.
Mas é legal as pessoas lembrarem que atrás desse uniforme, atrás dessa
postura, existe um ser humano, que sofre, ri, chora, ama, tem problemas
pessoais e é sensível. A gente sofre, mas não desanima.





Fonte: Correio Braziliense

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