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Análise – A vida do policial importa Postado em 26/02/2016 por Sindicato dos Policiais Federais às 11:18

Dados publicados
no Anuário de Segurança Pública de 2015 mostram que ao menos um policial
é morto por dia no Brasil.  De acordo com levantamento do Fórum
Brasileiro de Segurança Pública e do Núcleo de Estudos sobre
Organizações e Pessoas, da FGV - EAESP, realizado no ano passado com
mais de 10 mil policiais das diferentes forças policiais em todo o País,
61,9% dos que responderam a pesquisa relataram que tiveram algum colega
próximo vítima de homicídio em serviço. Fora de serviço, o número passa
para impressionantes 70% dos policiais cujos colegas próximos foram
vítima de homicídio. É raro passarmos uma semana sem um caso de execução
de policiais relatado na imprensa. Não é apenas o homicídio que ameaça a
vida dos policiais brasileiros. O suicídio e o adoecimento acarretado
pelo estresse e pelas dificuldades que os policiais enfrentam em seu dia
a dia compõem o drama cotidiano da profissão em nosso país. 
Recentemente, o cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite e da
série Narcos, argumentou em entrevista que o absurdo foi naturalizado no
Brasil, e a facilidade com que a sociedade brasileira aceita o
morticínio de policiais deixa o fato constatado por Padilha ainda mais
evidente.

A vulnerabilidade do trabalho policial tem na frequência com que
policiais são vitimados fatalmente a sua face mais repugnante. Porém,
não podemos deixar de considerar que há todo um sistema que contribui
para a fragilidade da profissão no País. Em primeiro lugar, destacam-se
as péssimas condições de trabalho com que policiais lidam no dia a dia.
Sobram histórias de armas fornecidas pelo Estado que às vezes falham, às
vezes disparam sozinhas. É insistentemente comum que policiais tenham
que comprar equipamentos para poder realizar as suas funções. Há casos
em território nacional em que os policias precisam levar para o serviço o
próprio papel higiênico. Isso sem falar que o apoio psicológico é
privilégio de poucas polícias brasileiras. Um segundo aspecto é a baixa
remuneração. Policiais brasileiros, com grande frequência, precisam ter
trabalhos fora da polícia para poder complementar a renda familiar. A
remuneração inadequada e insuficiente deixa os policiais em situação de
extrema vulnerabilidade. Em terceiro lugar, há o fator medo que ronda
diuturnamente a mente dos policiais. Muitos chegam ao ponto de precisar
esconder de seus próprios vizinhos a profissão que exercem.

Diante deste contexto, medidas urgentes precisam ser tomadas para romper
esse círculo vicioso que gera o morticínio nas polícias. É fundamental
uma articulação dos governos para fornecer aos policiais condições reais
de trabalho, com equipamentos adequados e efetivo condizente com os
desafios do País. Parcerias com universidades poderiam ser úteis para
mitigar problemas como a falta de apoio psicológico. Outro ponto
importante é a melhoria da remuneração, que poderia também ocorrer em
forma de salário indireto. Por exemplo: policiais poderiam ter
benefícios fiscais e também juros subsidiados para comprar casa e arcar
com a educação de seus filhos, por exemplo. É urgente, ainda, a produção
de pesquisas que esmiúcem as causas do morticínio de policiais no País.
Os governos, também, precisam mostrar mais sensibilidade para o
problema agilizando a liberação das indenizações dos policiais vitimados
e buscando amparar as famílias das vítimas. Mas, antes disso, seria
fundamental agir nas causas do problema. Finalmente, campanhas como a
capitaneada por membros do Garra da Polícia Civil de São Paulo são
fundamentais para conscientizar a sociedade da importância de se
preservar a vida de nossos policiais. A vida do policial importa, e
muito.

* Rafael Alcadipani, professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP e
visiting scholar no Boston College, EUA, e membro do Fórum Brasileiro
de Segurança Pública





Fonte: Estado de São Paulo

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